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Saudades do tempo que não vivi

dezembro 16, 2009

Já ouvi muitas pessoas dizerem algo como: “Que saudades eu tenho de Jesus.” Isso embora nunca O tenham visto pessoalmente. Um dia desses, após o culto do pôr do sol de sexta-feira, coloquei um CD antigo dos Arautos do Rei e disse para minha esposa: “Interessante… de repente, senti saudades de um tempo que não vivi.”

Enquanto ouvia aquelas músicas tradicionais, comecei a pensar nas histórias de pioneirismo, fé e coragem que levantei para escrever o livro A Chegada do Adventismo ao Brasil (também disponível numa versão compacta aqui). Difíceis viagens missionárias, reuniões campais cujo centro era a pregação da Palavra de Deus, estudos bíblicos nos lares (alguns varando a noite), reverência e senso de urgência – tudo isso era coisa comum naqueles idos.

Não posso dizer que foi mero saudosismo (até porque não tenho idade suficiente para ter vivido naqueles tempos e fui batizado em 1991) e nem estou, com essas palavras, deixando de reconhecer o crescimento e os avanços pelos quais a Igreja Adventista do Sétimo Dia passou nas últimas décadas. Em muitos sentidos, o preconceito que havia contra os “sabatistas” diminuiu bastante, graças ao maior (e respeitoso) diálogo que a igreja vem promovendo com as demais denominações e à ênfase equilibrada no assunto justificação pela fé. No entanto, fazendo um paralelo entre a igreja atual e a de “ontem”, vejo que há aspectos dos quais talvez tenhamos nos esquecido ou relegado a segundo plano e que poderíamos resgatar.

Reparadores de brechas

O profeta Isaías escreveu: “Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas” (58:12). E Ellen White registrou: “Um reavivamento da verdadeira piedade entre nós, eis a maior e mais urgente de todas as nossas necessidades”[1]; “Em visões da noite passaram perante mim representações de um grande movimento reformatório entre o povo de Deus”.[2]

Diversas vezes, nos escritos de Ellen White, é enfatizada a necessidade de um reavivamento e uma reforma entre o povo de Deus. E a palavra “reforma”, de acordo com o Minidicionário Aurélio, significa “corrigir, restaurar, reparar”. Mas corrigir e reparar o quê? E para quê? Vamos responder a segunda pergunta com dois textos:

1. “Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” (Amós 4:12).

2. “Estamos vivendo no período mais solene da história deste mundo… Nosso próprio bem-estar futuro e também a salvação de outras almas dependem do caminho que ora seguimos.”[3]

É preciso melhor motivo para uma reforma de vida? Respondamos agora a primeira pergunta: Reparar ou reformar o quê?

1. Tempo para a Bíblia e o Espírito de Profecia. A Bíblia, de acordo com Romanos 15:4, foi escrita para que tenhamos esperança. O fato de encontrarmos irmãos desanimados e insatisfeitos com sua vida religiosa revela o pouco contato que têm com a Palavra de Deus. É a leitura devocional da Bíblia e não meramente mudanças litúrgicas em nossos cultos, que vai trazer de volta o santo entusiasmo que move o cristão.

Devemos abrir a Bíblia com grande reverência. “Há minas de verdade ainda por descobrir por parte do fervoroso pesquisador. Cristo representou a verdade como sendo um tesouro escondido em um campo. Não está logo na superfície; para encontrá-lo é preciso cavar. Mas o nosso êxito em encontrá-lo não depende tanto de nossa capacidade intelectual como de nossa humildade de coração, e da fé que se apropria da ajuda divina.”[4] “Cave” nesse manancial inesgotável e viva com esperança!

Em Apocalipse 12:17 é dito que Satanás está irado com a igreja (aqui representada por uma mulher virtuosa), dentre outras coisas, por ela ter o Testemunho de Jesus, que é o Espírito de Profecia (ver Ap 19:10). Mas não é a simples posse desse dom e sim a atenção que se dá aos Testemunhos, que preocupa o inimigo. Afinal, “plano de Satanás é enfraquecer a fé do povo de Deus nos Testemunhos”,[5] pois o amor sincero à verdade e a cuidadosa obediência às instruções do Espírito de Profecia serão nossa única proteção contra os enganos do inimigo, os espíritos sedutores as doutrinas de demônios”.

2. Temperança cristã. Temperança é comumente referida como evitar o que faz mal e usar moderadamente e com sabedoria aquilo que faz bem. Embora se dê maior ênfase à alimentação, temperança envolve todas as áreas de nossa vida: trabalho, recreação, estudos, vestuário, etc. Ellen White escreveu: “Cumpre-[nos] praticar temperança no comer, beber e vestir.”[6] “Excessiva condescendência quanto ao comer, beber, dormir ou ver, é pecado.”[7] Interessante ela mencionar aqui a intemperança quanto ao “ver”. Frequentemente pessoas que alegam não dispor de tempo para estudar a Bíblia gastam horas e horas em frente ao televisor ou mesmo navegando na internet…

Fica claro, portanto, que intemperança tem que ver com a satisfação nociva de qualquer apetite ou paixão.[8] Lembre-se: “A saúde deve ser tão fielmente conservada como o caráter.”[9]

Com relação à reforma alimentar, precisamos fazer decididos esforços nesse sentido. Comer somente aquilo que faz bem ao organismo, evitando, por exemplo, a carne, pois, “se a alimentação de carne foi saudável um dia, é perigosa agora“.[10] [Itálicos acrescentados.] Mas é preciso não esquecer que, “à parte do poder divino, nenhuma reforma genuína pode ser efetuada”.[11]

3. Modéstia cristã. Em 2 Timóteo 2:9 e 2 Pedro 3:3 e 4, encontramos claras recomendações com relação ao vestuário adequado ao cristão. O mundo hoje está tão saturado de sensualismo que certas modas inadequadas para os que buscam a pureza são vistas como “normais” e “toleráveis”. Qual deve ser, afinal, o parâmetro?

Uma citação do livro Testemunhos Seletos, v. 1, p. 350, pode nos ajudar: “Trajar-se com simplicidade, e abster-se de ostentação de joias e ornamentos de toda espécie, está em harmonia com nossa fé.” E o Manual da Igreja, às páginas 35 e 174, recomenda: “Embora reconheçamos diferenças culturais, nosso vestuário deve ser simples, modesto e de bom gosto, apropriado àqueles cuja verdadeira beleza não consiste no adorno exterior, mas no ornamento imperecível de um espírito manso e tranquilo… É ensinado com clareza nas Escrituras que o uso de joias é contrário à vontade divina… o uso de ornamentos de joias é um esforço para atrair a atenção, está em desacordo com o esquecimento de si mesmo que o cristão deve manifestar.”

Devemos voltar às origens nessa questão (que evidentemente também diz respeito aos homens), deitar fora todo adorno desnecessário e vestir-nos com bom gosto e simplicidade. Isso, sem dúvida, fará muita diferença em nosso testemunho (desde que, é claro, seja a manifestação exterior de um coração genuinamente transformado).

4. Espírito missionário. Uma das facetas que mais me impressionam na igreja adventista de anos atrás é seu fervor missionário. É claro que hoje também podemos ver grandes demonstrações desse espírito entre nós, mas o envolvimento dos membros da igreja poderia ser muito maior, afinal, “todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário”.[12] Segundo dados da Divisão Sul-Americana, apenas 25% dos membros se envolvem no trabalho missionário, o que, infelizmente, está de acordo com as palavras de Ellen White, publicadas no livro Testemunhos Seletos, v. 3, p. 202: “Tem havido pouco espírito missionário entre os adventistas observadores do sábado.”

“A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos homens. Foi organizada para servir, e sua missão é levar o evangelho ao mundo”,[13] mas “não estamos, como cristãos, fazendo a vigésima parte do que deveríamos fazer para ganhar almas para Cristo”.[14]

5. Reverência. A tendência atual de se realizar grandes encontros e eventos é uma forma interessante de se evangelizar as grandes cidades. No entanto, as grandes concentrações têm favorecido um fenômeno típico da pós-modernidade: a busca de sensações fortes. E é isso que temos visto em algumas de nossas concentrações: cantores aplaudidos e ovacionados por plateias emocionadas e esquecidas do significado do verdadeiro louvor e do culto racional. “Do palco, é comum alguém sugerir que o público está exagerando. Mas um grupo que canta, ao som de ritmos tropicais, e pede que o público não grite nem assobie, é como dar água a quem tem sede e pedir que não beba”, escreveu Vanderlei Dorneles, na coluna “Entrelinhas”, da Revista Adventista de outubro de 2000. Para ele a pregação da Palavra deve ser o núcleo de todo evento. “Na medida em que a pregação é minimizada, a música assume o papel principal, e pode haver uma tendência para a emotividade vazia.”

Ellen White já havia constatado que “houve uma grande mudança, não para melhor mas para pior, nos hábitos e costumes do povo com relação ao culto religioso”.[15] E, com relação ao comportamento no templo, ela diz: “Quando os crentes entram na igreja, devem guardar a devida compostura e tomar silenciosamente seu lugar… Conversas vulgares, cochichos e risos não devem ser permitidos na igreja, nem antes nem depois das reuniões… Se faltam alguns minutos… os crentes devem entregar-se à devoção e meditação silenciosa.”[16]

Eis outra brecha que precisamos, com muita oração e ação, tapar no muro de nossas práticas religiosas.

6. A observância do sábado. No capítulo 20, verso 20, de seu livro, o profeta Ezequiel afirma que o sábado é um sinal entre Deus e Seu povo. Como tal, deve ser cuidadosa e sabiamente santificado, a fim de que seu sentido não se perca. “Devemos observar cuidadosamente os limites do sábado”[17], diz Ellen White. Minutos antes do início do sábado, toda a família deve se reunir em cânticos e leitura da Bíblia. As crianças devem participar.

Qualquer dúvida quanto a esse assunto, leia Isaías 58:12 e 13.

7. O altar da família. “Uma família bem ordenada, bem disciplinada, fala mais em favor do cristianismo do que todos os sermões que se possam pregar.”[20] Às vezes, nos dedicamos tanto ao trabalho, ou mesmo à igreja, que negligenciamos nosso papel na família. Para Ellen White, o lar deve ser uma pequena igreja que louve e glorifique ao Redentor.[21] Portanto, assim como participamos de cultos na igreja, também devemos realizá-los em nosso lar. Na verdade, a falta de atenção a essa recomendação é o que enfraquece a Igreja.[22]

Conclusão

Eu ainda ouvia as músicas dos Arautos do Rei, naquele sábado, quando me vieram à mente os textos de João 15 e Filipenses 4:13. Reafirmei para mim mesmo a promessa divina de que tudo o que precisa ser reparado na igreja de Deus, vai ser feito por Ele mesmo. “Sem Mim nada podeis fazer” e “tudo posso nAquele que me fortalece.”

Oremos para que logo possamos ver essa querida Igreja reavivada e reformada, e para que possamos ser, cada um de nós, os iniciadores desse processo. Afinal, o verdadeiro reavivamento espiritual no meio do povo de Deus começa hoje, porque começa em mim.

1. Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 121.

2. Testemunhos Seletos, v. 3, p. 345.

3. O Grande Conflito, p. 601.

4.Testemunhos Seletos, v. 2, p. 309.

5. Testimonies, v. 5, p. 663.

6. Medicina e Salvação, p. 275.

7. Testimonies, vol. 4, p. 417.

8. Sign of the Times, 17/11/1890.

9. Educação, p. 195.

10. Testemunhos Seletos, v. 3, p. 359 – itálicos supridos.

11. Temperança, p. 109.

12. O Desejado de Todas as Nações, p. 195.

13. Atos dos Apóstolos, p. 9

14. Serviço Cristão, p. 12.

15. Testemunhos Seletos, v. 2, p. 193.

17. Testemunhos Seletos, v. 2, p. 194.

18. Testemunhos Seletos, v. 3, p. 22.

19. O Lar Adventista, p. 32.

20. Ver O Lar Adventista, p. 323.

21. Ibidem, p. 319.

Michelson Borges

Jornalista (formado pela UFSC) e editor da Casa Publicadora Brasileira. É autor dos livros Nos Bastidores da Mídia, Por Que Creio, A História da Vida, entre outros. Mestrando em Teologia pelo Unasp, mantém o blog http://www.criacionismo.com.br

Retirado do site OutraLeitura

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