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Testemunhando o Vestibular

maio 7, 2010

“Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim com tu queres”. Mat. 26:39

Sempre fiquei impressionado com as explícitas promessas divinas de bênçãos para o ser humano. E quando falo “sempre”, não chego a exagerar, pois fui criado desde pequeno em uma religião cristã. Ouvia histórias de heróis bíblicos como Moisés, José, Davi e outros; sempre com um ar de admiração e com uma pontinha de vontade de, quando crescesse, tornar-me um deles. O tempo passou, tornei-me ativo na igreja. Era professor da Escola Sabatina e Desbravador. Gostava muito de doutrina e acabei me dedicando bastante à leitura e estudo do Espírito de Profecia. Acabei por tornar-me um tanto quanto diferente da maioria dos meus amigos e colegas, em plena adolescência era um árduo estudioso das Escrituras.

Mantinha, nesta época, uma correspondência com um tio em São Paulo, trocávamos cartas nas quais religião era assunto corriqueiro. Sentia-me o próprio Timóteo ao corresponder-se com seu mentor Paulo.

Na minha vida escolar começaram os questionamentos sobre o futuro. Qual seria a minha escolha profissional? Tinha um bom rendimento escolar em uma boa escola. Aparentemente isto me daria substrato para poder almejar altos vôos. À época, o que me atraía mais como atividade eram minhas aventuras como desbravador e, graças a algumas influências externas, acabei por decidir seguir a carreira militar. Almejava formar-me como oficial do exército e aventurar-me pelo Brasil afora. Escalar, mergulhar, saltar de pára-quedas e embrenhar-me nas matas, era isso o que queria para o meu futuro. A idéia amadureceu e, naturalmente, chegou ao conhecimento do meu tio de São Paulo.

Recebo, então, uma carta. Poderia até chamar de carta-bomba. Nela, aquele meu tio expunha a incongruência de um cristão seguir a carreira que eu estava desejando. Incluída na profissão que havia escolhido estava a cultura da guerra, onde pessoas matam e destroem vidas alheias.

Pronto. E agora? O que fazer? Meus planos estavam traçados e de repente os via sumirem como que apagados por uma cruel borracha. Ajoelhei-me e abri meu coração para Deus. Contei para Ele toda a minha angústia e pedi que Ele me mostrasse um caminho.

Poucos dias depois recebi a visita de um primo muito querido. Conversamos por um bom tempo e percebi que Deus havia me respondido. Meu primo é médico e enquanto conversávamos minha mente foi desanuviando-se e um esboço de um novo caminho foi traçado. Apenas um esboço, pois jamais imaginaria a trilha que ainda teria que percorrer.

Para encurtar a história, prestei vestibular logo após terminar o ensino médio (na época chamava-se Segundo Grau). Não passei. Mas como não tinha estudado o suficiente e sempre soube que temos que fazer a nossa parte para que Deus faça a dEle, encarei com naturalidade e comecei a estudar para o próximo concurso, no qual também não passei. Como também o seguinte.

Será que eu tinha entendido errado? O que faltava fazer? Sabia ser inteligente o bastante e não conseguia entender a disparidade entre o meu conhecimento e o resultado das provas. Concluí que as histórias bíblicas não se repetem, pelo menos não comigo.

Comecei a cursar a faculdade de fisioterapia. Fui um péssimo aluno enquanto freqüentei o curso. Nessa época, minha irmã estava em São Paulo, fazendo pós-graduação em Direito. Em uma de nossas conversas ela perguntou se eu estava satisfeito com a faculdade e se me interessaria em tentar o vestibular em São Paulo. Afinal de contas, em São Paulo há muitas faculdades de medicina e, assim sendo, maior chance de aprovação.

Não havia tempo a perder, em poucos dias encerravam-se as inscrições para o vestibular e em menos de uma semana já estava desembarcando no aeroporto de São Paulo.

Logo que cheguei, a surpresa. Com exceção de um vestibular, todos os outros tinham provas no sábado, algo que me impossibilitava de prestá-los. Somente um, o mais disputado e difícil deles, não tinha provas no sábado.

Mais uma vez meus planos mudam. Ao invés de prestar a prova competitivamente, eu faria apenas como experiência e passaria todo o ano seguinte estudando e prestar, aí sim, pra valer. Não era falta de confiança ou algo do gênero; eu não poderia ignorar o fato que passara quase um ano sem pegar em matéria de vestibular e vinha de fracassos em um vestibular com cerca de dez por cento do número de concorrentes do atual.

Freqüentei um cursinho por dois meses para tentar revisar pelo menos parte da matéria. É curioso lembrar que eu era o único candidato de medicina na minha classe. Ninguém seria louco de achar que teria chance estudando por dois meses. Na verdade, eu também. Daí o improvável aconteceu, consegui passar na primeira fase; não podemos dizer que era grande coisa considerando o que ainda faltava. No cursinho, após a primeira fase, quando reuniram todas as salas de alunos concorrendo para medicina, eu tive que parar de freqüentar já no primeiro dia, pois não conseguia acompanhar o nível das aulas e dos colegas. Para se ter uma idéia, na primeira aula, não consegui sequer identificar de qual matéria o professor tratava. Fui para casa e não pisei mais no cursinho.

Realmente, não pisei mais lá. O passo seguinte foi a segundo fase, feita com a tranqüilidade de quem não tem menor chance de aprovação. Apesar de toda improbabilidade, quase impossibilidade, fui aprovado no vestibular de medicina mais concorrido do país!

Lembro-me de que, quando não fui aprovado no vestibular em Fortaleza, senti uma ponta de revolta. Havia desistido de meus planos para seguir os planos de Deus e Ele me virou as costas quando precisei dEle no vestibular. Hoje posso ver que, se não fiz faculdade em Fortaleza foi porque Ele havia reservado algo melhor do que eu poderia imaginar para mim.

Lembro também que quando prestei vestibular pela primeira vez, minha oração foi para que Deus me ajudasse a passar no vestibular; na última vez, pedi para que Ele decidisse o resultado, qualquer que fosse, mas que Ele decidisse. Mais importante que se preparar para passar na prova foi estar pronto para não passar caso Deus assim o desejasse.

Por vezes esquecemos a importância que tem o livre arbítrio. Pedimos que Deus nos ajude em nossa vida, mas a seguramos em nossas mãos querendo escolher nosso próprio destino. Ele não é um tirano, não vai tomar nosso destino de nossas mãos à força, temos que entregar nossa vida a Ele e deixarmos que cuide de nós com Seu infinito amor.

A figura e o exemplo de Jesus me vêm à mente. No Getsêmani, em Sua agonia, apesar de ter Ele todo o poder, abdicou de Sua própria vontade entregando Seu destino ao Pai. Não foi ao pedir alívio que Ele o conseguiu, mas foi ao despojar-Se de Si mesmo. O Pai, então, enviou Seu mensageiro para levar-lhe consolo. E é graças à Sua escolha que temos hoje um Redentor, conhecedor de nossas dores e inseguranças e capaz de nos socorrer sempre que permitirmos que Ele o faça.

Obrigado, Jesus. Obrigado, Pai.

Dr. Christian Ximenes

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